quinta-feira, 19 de abril de 2007

Velha

Andava ligeira enquanto fumava o cigarro que fora esmolado de um rapaz com barba e olhos de revolucionário. Guardava ainda o jeito antigo de fumar: de súbito parava, colocava uma das mãos levemente em volta da cintura descarnada e, com a outra mão, segurava entre dois dedos o cigarro e esperava o primeiro conhecido do beco passar, chamando para qualquer asneira para lambuzar-lhe toda a cara de fumo. Gloriosa, deixava ver os dentes já moles e esverdeados.
Enxergava toda embaçada e com desbote a filha que, preguiçosa, se demorava a se levantar da calçada da Avenida. Marieta conversava com a moça que apareceu semana passada. Sabe-se que a novata apanhou de homem, andava com a cara toda roxa, preta, azulada, num colorido confuso que é a dor.
A velha largou o cigarro e veio sorrindo cobrir o chão:
- Sent’aqui, moça, sent’aqui.
Olhou para a Marieta encrespando toda a face, erguendo os braços cor de barro, quase escuros, mandando-a ir pra longe. A outra se aproximava.
- Venha perto.
Obediente, ela se sentou medrosa, abaixando logo a cabeça, na vergonha que era estar toda estourada.
A mão cor de ferrugem com cheiro de fumo forte tirou os cabelos pretos da moça, que atrapalhavam qualquer contemplação.
- Ai, que me lembro!
Com a cara atormentada, dolente, a perdida teimava cravar no chão cinzento os olhos, mexendo com os pés nas bitucas infinitas de cigarro – absorta.
Foi quando engravidou e tudo se deu no Britinho. Perdeu a casa e ganhou toda a fome que lhe tapava os lábios. Não senhor, nunca deitara com outro homem, tinha uma decência medrosa e um querer áspero por Henrique. Ele enlouqueceu, enlouqueceu! Doido de ciúmes, afirmando que Brito era filho de um outro, de um desconhecido qualquer, saiu em uma quarta-feira e não levou suas roupas. Perdeu tudo, e das camisas já velhas de Henrique, fazia os trapos para deitarem em cima.
- Homem egoísta!
Mas, como era bom lembrar-se que um dia foi tão desejada! Mas, ele se perdeu...
- Tudo natural! Me perdi também.
Espremeu bem os olhos, entreabriu a boca deixando cair uma saliva ora cristalina, ora branco-amarela no queixo acriançado. Chorava difícil, sem voz, já não sabia mais... Sentiu a moça deitando a cabeça doída, esparramando-se toda em seu ombro. Encostou-se nos sacos de lixo azul, e como fazia um sol severo naquele dia, suava amarga.
Foi atrás do poste de luz que viu Marieta se escondendo, rindo pequena, com a ponta dos dedos segurando a boca, para não jogar gargalhadas sobre a Avenida, chamando junto um cabrito para abrir-lhe a boca, cheia de riso e bisbilhotice.
E as mãos velhas e manchadas de pedrinhas do chão agarraram assanhadas duas garrafas de plástico cheias de água de Britinho.
- Que te pego, Marieta!
Largou uma das garrafas deixando-a correr entre os carros. Abriu todo o peito para gritar:
-Ô Edmirson! Pega! Safada!
O moreno bom que lhe arrumava jornais quase todas as noites, agarrou Marieta sério. A garrafada no seu ombro vadiava dolorida, e mais duas ou quatro, deixando-a calma, doída e quente, enquanto toda a manhã se alastrava em
seu corpo macio.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Ká,
Este conto é extremamente novairoquino, se não fosse marcado pela fala regionalista das personagens,certamente seria um HQ de Eisner...
Fantástico! muito bom de fato...Parabéns meninas pelo blog,os contos são ótimos!
beijos
Rê

Anônimo disse...

Nó
O conto tá lindo mesmo... bem escrito!

Muito Bom
Agora vou ler o resto do blog
=]

=*